Zumbis na natureza #4 - Humanos aventureiros

A espécie humana sempre se sentiu superior aos outros seres vivos. Talvez por ter uma capacidade cerebral avantajada, que possibilitou a criação de inúmeros produtos, ela se acha "a espécie dominante". Só que os defensores dessa ideia esqueceram de algo básico na sobrevivência de qualquer espécie: observação e humildade. O ser humano "se acha" e ignora que seres microscópicos o deixa doente e usa-o como "ponte" para seu ambiente reprodutivo.

Existe uma protozoário, o Toxoplasma gondii, que altera o comportamento das pessoas que ele infecta, fazendo do ser humano um zumbi dessa criaturinha.

Toxoplasma gondii

Esse protozoário é mais comum do que você pode imaginar. Ela habita fezes de felinos e causa a toxoplasmose. Essa doença, quando sintomática, provoca alterações no coração, fígado e músculos, além de manchas pelo corpo e dores de cabeça. Quando uma pessoa pega essa doença, é porque entrou em contato com cistos do T. gondii em alimentos e água contaminados ou em locais onde existem fezes de felinos com esse ser.

E a presença desses cistos nas fezes dos gatos não é mera obra do acaso. Para se reproduzir sexuadamente, o Toxoplasma precisa estar no sistema digestivo de felinos. Mesmo reproduzindo-se assexuadamente em qualquer outro organismo, a reprodução sexuada garante melhores combinações genéticas que podem ser benéficas às futuras gerações; por isso o nosso amigo protozoário prefere "fazer amor" no intestino dos gatinhos.

No entanto, o T. gondii não imaginaria que ele iria entrar em outros organismos que não satisfizesse suas necessidades reprodutivas. Ele precisa encontrar um felino. Para isso, ele desenvolveu um mecanismo bioquímico formidável de alteração de comportamento para fazer seus hospedeiros levá-lo até os gatos.

T. gondii simplesmente deixa o ser infectado sem medos, permitindo que ele se arrisque perto de predadores. É o caso de ratos contaminados que simplesmente perdem o medo de gatos e ficam muitos mais fáceis de serem capturados. Dessa forma, o ratinho é comido pelo gato e o nosso amigo unicelular vai para no intestino do felino se reproduzir.

E os humanos? O T. gondii também nos modifica para chegar ao seu destino final. Quando uma pessoa é infectada, cistos desse protozoário vão para o cérebro dos doentes e ali começa a manipulação do ser. Chegando lá, os cistos fabricam uma enzima chamada tirosina hidroxilase. Essa enzima, que também é produzida pelo nosso organismo, é utilizada na síntese de dopamina. Esse neurotransmissor está associado a estabilidade do humor, mas também a alguns sintomas da esquizofrenia. O que o cisto provoca é um aumento da síntese desse neurotransmissor, deixando a pessoa doente com sintomas de esquizofrenia e transtorno bipolar.

Outras alterações variam conforme o sexo dos doentes. Em homens, eles tendem a ser mais agressivos,  aventureiros, anti-sociais e menos atraentes. Já as mulheres ficam mais desejáveis e divertidas, possivelmente mais promíscuas e menos confiáveis. Tudo isso, acredita-se, são efeitos do T. gondii para conseguir chegar aos felinos. Como?

Comecemos pelos homens. Atitudes agressivas e aventureiras fazem com que ele se arrisque mais do que pessoas sadias. Dessa maneira, ele estaria mais exposto à predadores, podendo ser facilmente morto por um grande felino (lembra-se dos ratinhos sem medo?). Nas mulheres, as alterações podem ter um aspecto de planejamento dos futuros hospedeiros. 

A toxoplasmose é uma doença congênita, ou seja, passa da mãe para o bebê durante a gravidez. Pesquisas tem mostrado mulheres com o T. gondii aumentam as chances de terem bebês do sexo masculino. Isso aconteça talvez porque homens tendem a ser mais aventureiros e sujeitos a serem mortos pelos felinos.


Só que dessa vez, diferente dos outros casos de zumbi que já mostrei aqui no blog, o tiro sai pela culatra. Essa estratégia do Toxoplasma não funciona muito bem na sociedade atual, onde não vivemos nas florestas e savanas à mercê de grandes felinos. Neste caso, o controle mental desse pequeno ser não alcança seu êxito, mas, mesmo assim, é um mais um caso de zumbi que temos por aí. Somos controlados por um organismo unicelular para fazer com que percamos nossos medos e fiquemos correndo riscos por aí. Somos usados por ele e isso mostra que não somos tão superiores assim.

Nas palavras de Reinaldo José Lopes, no livro Além de Darwin: "se esse não é um dos argumentos mais indiscutíveis em favor de uma humanidade mais humilde, eu não sei qual seria".



Gostou dos casos mais bizarros, e talvez até macabros, de zumbis e controles mentais que existem na natureza? Veja outros exemplos nesses artigos que achei por aí. Deleite-se com esses casos e curta seu Halloween:

Zumbis na natureza #4 - Humanos aventureiros Zumbis na natureza #4 - Humanos aventureiros Reviewed by Túlio Lima Botelho on 17:00 Rating: 5

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