Espécie do Mês - Esperança

Na natureza, vemos muitos animais que possuem uma exímia capacidade de se misturar ao meio em que vivem. Quem se lembra do urutau, de quem já falamos aqui no blog? Insetos também são especialistas em fazer isso, como os bichos-pau e as esperanças, que vamos conhecer hoje.



As esperanças são insetos da ordem Orthoptera (que também engloba os grilos e gafanhotos), do gênero Tettigonia. São insetos fitófagos, ou seja, se alimentam de plantas. Entretanto, não são consideradas pragas potenciais de lavouras. Eles possuem mais hábitos noturnos, onde os machos realizam seus "cantos" na época da reprodução.

Os sons que produzem são bem semelhantes aos das cigarras, mas o ser humano pode não percebê-los tão facilmente. Afinal, os sons da esperança atingem uma frequência de 1 a 100 Hz, enquanto o ouvido humano capta sons de 20 a 20 mil Hz. E falando em ouvidos, o sistema de percepção sonora desses insetos é muito peculiar a comparados com outros do mesmo grupo. Com os "ouvidos" nas pernas, as esperanças possuem um sistema de membranas associada com uma estrutura que seria análoga ao nosso ouvido médio, que, por sua vez, está associada a uma estrutura semelhante à nossa cóclea. Leia o que o neurobiólogo da Universidade de Cornell, Ronaldo Hoy, disse à revista Science sobre o estudo de sua equipe:

“[Os pesquisadores] mostram que na [esperança], membranas timpânicas no ouvido externo [análogas aos nossos tímpanos] são aliadas a uma estrutura dura parecida com um ouvido médio e uma alavanca, que por sua vez, está aliada a uma câmara do ouvido interno alongada e cheia de fluído contendo uma matriz linear de receptores sensoriais. A principal descoberta é a adaptação de impedâncias e de amplificação de um componente parecido com um ouvido médio e uma alavanca, a tampa timpânica, que age em conjunto com as membranas timpânicas que outrora não eram conhecidas. Esse ‘ouvido médio’ transfere eficientemente vibrações aéreas para vibrações da vesícula acústica cheia de fluído”. (FONTE: Jornal da Ciência).

Esse é um ótimo exemplo de convergência adaptativa, onde estruturas de espécies diferentes evoluem para algo próximo entre elas. E falando em adaptação, outra característica que chama a atenção para as esperanças é sua capacidade de se camuflar em qualquer árvore. Ela possui o corpo semelhante a uma folha e alguns indivíduos possuem formato que lembram as nervuras das folhas, ataques de fungos ou roída por isentos! Sem falar que ela consegue reproduzir muito bem as cores de onde ela pousa, ficando difícil de ser atacada por predadores (aves, lagartos, anfíbios entre outros).



As esperanças possuem a vida curta. Elas nascem na primavera e morrem no fim do outono, pois são muito sensíveis às baixas temperaturas do inverno. Por isso, quando o outono está chegando ao fim, elas põem seus ovos no solo, onde resistem ao inverno, para as ninfas emergirem no começo da primavera.

Esses insetos estão presentes em qualquer lugar, tanto na zona rural quanto urbana, e suas asas podem levar às esperanças a realizar voos de alguns quilômetros. Também possuem as patas traseiras adaptadas ao salto, como os membros de sua ordem. Só que a destruição de habitat e a contaminação por agrotóxicos, como sempre, coloca esse inseto formidável em risco de extinção.

A esperança é um inseto que, para algumas pessoas, tem um significado especial. Para alguns, se ela pousa em você, é sinal de boa sorte. Mas, se você vê alguma delas morta, não é bom sinal. Acreditando ou não, essa é uma espécie bem curiosa, que mostra toda a sua eficiência para continuar viva e enganar quem olha para uma árvore pensando que ali só tem folhas*.


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*Isso aconteceu comigo, passando perto desse chuchuzeiro. Mal dá pra perceber o inseto ali se você passa sem prestar muita atenção.
Espécie do Mês - Esperança Espécie do Mês - Esperança Reviewed by Túlio Lima Botelho on 19:03 Rating: 5

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