Espécie do Mês - Jararaca-ilhoa

As serpentes, ao mesmo tempo, fascinam e assustam as pessoas. Uma em especial, além desses sentimentos, também tem sua importância médica e é alvo de muitos estudos na compreensão de como uma espécie se forma e como a evolução atua em seres vivos isolados. Essa espécie, que vive no litoral de São Paulo, é a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis).

Jararaca-ilhoa

Habitante da Ilha de Queimada Grande, localizada a 30 km da costa de São Paulo, na cidade de Itanhaém, a jararaca-ilhoa é uma serpente brasileira que pode chegar a 60 cm. É o único predador dessa ilha, que também abriga algumas espécies de anfíbios, morcegos, lagartos, outras serpentes e muitas espécies que pássaros, residentes e também migratórios. Essa ilha é famosa pela grande população desses ofídios, que pode chegar a mais de 2 mil num espaço de apenas 1,5 km!

Essa espécie de jararaca é muito diferente de sua versão continental. Para começar, sua coloração. A jararaca do continente possui várias manchas que ajudam na camuflagem nas folhas caídas no solo e em outros lugares onde ela vive. A ilhoa possui apenas uma coloração, em tom pardo-amarelado. Possivelmente a jararaca-ilhoa não precise de tanta coloração para se misturar ao meio porque é o topo da cadeia alimentar na ilha onde vive, não precisando se preocupar em fugir de predadores.

A alimentação também é diferente entre as duas serpentes. Enquanto as jararacas do continente se alimentam de roedores, a jararaca-ilhoa se especializou em se alimentar de pássaros. Com um veneno 5 vezes mais potentes que a de outras jararacas, ela ataca um pássaro e o mantém na boca até que o veneno faça efeito. Dessa maneira, ela não corre o risco da ave voar e morrer muito longe, onde ela não possa seguir seu rastro. Além das aves, ela também pode se alimentar de lacraias, rãs, lagartos ou da dormideira, que é outra serpente que vive na ilha. A ilhoa se adaptou ao comportamento arborícola, enquanto suas parentes do continente passam a vida adulta no solo.

Outra adaptação à obtenção de alimento é a ponta branca de suas caudas. A ilhoa balança a ponta do rabo, que, pela coloração, lembra um larva de inseto. A ave, então, tenta de alimentar dessa "larva", mas vira alimento da serpente.

Essa espécie se reproduz entre março e julho e os filhotes nascem no começo do ano. Ela é um espécie vivípara, dando a luz cerca de 10 serpentezinhas.


Acredita-se que essas espécies de jararacas se diferenciaram a aproximadamente 11 mil anos, ao fim da última era glacial. A Ilha de Queimada Grande era ligada ao continente por uma faixa de terra e os ancestrais dessas serpentes tinham ampla distribuição. Com o aumento do nível do oceano, essa faixa de terra ficou submersa, separando as duas populações.

Mas nem tudo são flores para essa espécie. Por viver em um único lugar, qualquer alteração que ocorra na ilha pode ser letal para a espécie; um simples incêndio pode levá-la à extinção. Embora a visitação na ilha seja proibida (que vai lá são pesquisadores, oficiais da Marinha, todos com autorização), acredita-se que muitos caçadores capturam as ilhoas como produtos do tráfico internacional de espécies. É uma prática abominável, pois além de colocar esses animais em condições deploráveis, atrapalham pesquisas que podem ser muito úteis ao conhecimento.

Pois além de se descobrir a atuação da evolução e seus mecanismos em ambientes isolados, o veneno da jararaca-ilhoa possui um princípio ativo importantíssimo no combate à hipertensão, cujas pesquisas já resultaram na patente dos medicamentos Captopril e Evasin.

Uma curiosidade: as fêmeas da jararaca-ilhoa apresentam um estrutura semelhante ao hemipênis do macho. Essa estrutura é chamada de hemiclitóris, embora não se saiba ao certo sua função.


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REFERÊNCIAS:
Espécie do Mês - Jararaca-ilhoa Espécie do Mês - Jararaca-ilhoa Reviewed by Túlio Lima Botelho on 14:00 Rating: 5

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