O que É? - Mimetismo

Num outro post falamos sobre a camuflagem. Mas existe outra característica que muitos seres vivos apresentam que lhes confere a habilidade de se parecer com outros seres vivos, o chamado mimetismo. O mimetismo se difere da camuflagem, pois organismos mímicos se parecem com outros organismos, enquanto organismos com algum tipo de camuflagem assemelham-se ao ambiente onde estão localizados.

Tipo de evolução convergente, o mimetismo confere diversas vantagens contra predação aos organismos, iludindo possíveis predadores. Um exemplo clássico é o da borboleta-monarca (Danaus plexippus) e a borboleta-vice-rei (Limenitis archippus). A primeira, impalatável aos pássaros, vive tranquila sem se preocupar que alguma ave venha comê-la. Enquanto isso, a borboleta-vice-rei é apreciada por esses mesmos pássaros. Só que ela também não é predada por eles por possuir uma coloração extremamente semelhante à da monarca. Assim, quando um pássaro se aproxima para se alimentar de uma vice-rei, logo pensa que ela é uma monarca e do gosto ruim que ela deve ter, e vai buscar outra presa.

Borboletas monarca e vice-rei
À esquerda - borboleta-monarca. À direita - borboleta vice-rei, a mimética

O mimetismo tem uma importância imensa para os seres vivos que o apresentam. Ele pode ser útil na defesa contra predadores. Além do caso da borboleta vice-rei, diversos outros animais imitam seres venenosos para fugir do ataque de predadores. Outros, ao se parecer com folhas, conseguem se camuflar em meio a um arbusto. No entanto, o mimetismo também pode ser útil a predadores em busca de alimento.

No mais clássico estilo "lobo em pele de cordeiro", esses predadores se assemelham a suas presas para se infiltrar no meio delas, sem levantar nenhuma suspeita. Mas, quando menos se espera, a predação começa. Um exemplo disso são aranhas do gênero Aphantochilus, que se mimetizam de formigas para entrar nos formigueiros, atrair uma presa para um canto e capturá-la. A estratégia dessas aranhas é tão interessante que elas evitam um ataque onde existam muitas formigas, para fugir uma defesa cooperativa da colônia, o que colocaria a vida da aranha em perigo.

Aranhas do gênero Aphantochilus. Detalhe para ela capturando uma formiga Cephalotes sp., que ela mimetiza. Fonte: Insetologia.

Por fim, o mimetismo também pode ter uma função reprodutiva. Muitas plantas, principalmente orquídeas, possuem seu aparelho reprodutor em forma de fêmeas de várias espécies de insetos e secretam feromônios semelhantes aos liberados por esses artrópodes. Assim, os machos são atraídos para essas flores e atuam na polinização das orquídeas, garantindo a perpetuação da espécie vegetal.

Orquídea com aparelho reprodutor semelhante a inseto.
Orquídea com aparelho reprodutor semelhante a inseto.

O mimetismo tem algumas classificações quanto ao tipo, onde leva em consideração o valor adaptativo que beneficia a espécie imitadora. O mimetismo batesiano é o tipo mais comum, onde o organismo imitador e o modelo vivem no mesmo habitat, mas não interagem de forma direta. A espécie que serve de modelo não é atacada por predadores, então a espécie mimética se assemelha a ela e, assim, também é evitada pelos predadores. Um exemplo são insetos que se parecem com vespas, famosas pela agressividade.

Diversos insetos que se assemelham a vespas.
Diversos insetos que se assemelham a vespas.

O mimetismos mülleriano é bastante semelhante ao tipo batesiano. Porém no caso mülleriano, a espécie mimética copia organismos impalatáveis e suas sinalizações de advertência (odores, cores, formas), para alertar os predadores que não é bom ingeri-las. A espécie mimética não tem nada disso, mas sua cópia faz com que os possíveis predadores a evitem também. É o clássico exemplo da borboleta-monarca e da borboleta vice-rei que já comentamos ali em cima.

Já no mimetismo packamiano é o predador que se torna mímico, disfarçando de outros organismos para capturar suas presas mais facilmente. É o caso de espécies de louva-a-deus que imitam o aparelho reprodutor de orquídeas. Escondido no meio da flor, ele espera um inseto polinizador chegar nessa orquídea, acreditando que está numa flor comum. No entanto, o que esse inseto encontra é um louva-a-deus faminto, pronto para devorá-lo.

Louva-a-deus mimetizando uma orquídea
Louva-a-deus mimetizando uma orquídea.

O mimetismo wasmanniano é caracterizado pela semelhança na comunicação tátil entre os organismos. As estruturas de comunicação são semelhantes, onde o mimético aproveita isso para obter vantagens de locomoção. A espécie modelo não é prejudicada e muitas vezes forma, com o mimético, uma relação de comensalismo. Ácaros do gênero Planodiscus imitam o tegumento da tíbia da formiga Eciton hamatum para fazer com que elas os carreguem para outros lugares. Eles são tão semelhantes às patinhas da formiga que passam despercebidos.

Por fim, temos o mimetismo mertesiano, onde o organismo imitador, que não tem veneno, imita as cores de um organismo muito venenoso. Esses miméticos imitam os organismos aposemáticos, já que suas cores de advertência alertam sobre a presença de grandes quantidades de veneno. É o caso do mimetismo realizado pela falsa-coral (Oxyrhopus guibei), que se parece demais com a coral-verdadeira (família Elapidae).

Coral-verdadeira e falsa-coral.
Coral-verdadeira e falsa-coral.

O mimetismo é uma estratégia que os seres vivos desenvolveram que garantiram seu sucesso de sobrevivência. É uma clara forma de adaptação que evolução criou e permite relações e surpresas inacreditáveis na natureza. Conhecer essa estratégia nos deixa cada vez mais fascinados pela grandeza do mundo natural. Procure você animais miméticos, numa praça eles podem estar bem perto de você. Ou na internet mesmo. Você encontra fotos com semelhanças surpreendentes. Pesquise!
O que É? - Mimetismo O que É? - Mimetismo Reviewed by Túlio Lima Botelho on 14:00 Rating: 5

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