Vida nas profundezas

Algo que sempre me surpreende é o quanto a vida surpreende as pessoas. Ela pode surgir em qualquer lugar, até nos mais inesperados e em formas fantásticas, diferentes de tudo que já vimos ou imaginamos. Um bom exemplo são os seres vivos que vivem na chamada zona abissal.

Os oceanos são divididos em regiões (ou zonas) com base na intensidade de luz que chega em cada uma delas e na profundidade. Nas regiões próximas à superfície, onde há muita incidência de luz solar, a biodiversidade é riquíssima. Conhecemos bem os organismos dessa região: peixes de diversas cores, corais, águas-vivas, algas, sem falar do plâncton que é base dessa teia alimentar.

Zonas oceânicas

No entanto, a medida que aumenta a profundidade, a luz diminui, as temperaturas caem e a pressão aumenta. É um ambiente inóspito, onde o ser humano morreria devido às altas pressões. Parece que nada sobreviveria ali, mas a natureza nos mostra que não. Existem várias espécies de organismos nesses locais escuros nas profundezas dos oceanos. E a cada pesquisa, novas espécies são encontradas.

O alimento nesse ambiente é escasso. Como não há luz, não há seres que realizam fotossíntese. O que já se encontrou, foram seres que utilizam elementos químicos na obtenção de energia, a chamada quimiossíntese. Para os organismos maiores, o alimento vem da superfície: pequenos animais que possam estar na coluna d'água, peixes menores, ou alimentos e até fezes que caem da superfície. Por causa dessa escassez, tudo deve ser aproveitado, e os peixes dessas regiões tem os dentes enormes, em relação a seu corpo; qualquer coisa que cair ali será alimento.

Os animais dali ainda possuem outras estratégias para a obtenção de alimento: existem os peixes filtradores, como o Bassogigas gillii, que possuem estruturas na faringe que filtram a água em busca de partículas de alimento; outros possuem a boca muito articulada, abrindo muito e podendo abocanhar alimentos de diversos tamanhos (é o caso do Malacosteus niger); outros, como o Anoplogaster cornuta, fecham os dentes como uma prisão, impedindo que o alimento fuja; por fim, temos os clássicos peixes com a lampadazinha, que é um modificação na nadadeira dorsal com capacidade bioluminescente que atrai suas presas.

Procurar um parceiro nessas regiões pode ser algo complicado. Para isso, esses organismos deram seu jeitinho. Ainda falando dos peixes que vivem ali, eles possuem várias estratégias para conseguir se reproduzir. Allocittus verrucosos formam cardumes enormes com indivíduos de ambos os sexos. Assim eles ficam próximos o ano todo, não apenas na época do acasalamento. Outras espécies são hermafroditas, ou seja, possuem órgãos masculinos e femininos. É o caso do Benthosema suborbitale, que pode se autofecundar na ausência de um parceiro ou fazer reprodução com outro de sua espécie, caso encontre um. Ainda existe o curioso caso do Melanocetus johnsonii, em que os machos foram reduzidos a parasitas das fêmeas de sua espécie. Eles se alimentam diretamente do sangue das fêmeas e no final, podem restar apenas as gônadas deles, que vão fecundar sua hospedeira. No fim, o que importa é a perpetuação da espécie.

Peixes abissais
Fonte: Ciência à Bessa

Outra caraterística dos seres abissais é a bioluminescência. Peixes, algas, águas-vivas e toda um infinidade de seres que habitam essas profundezas emitem luz, seja para atrais presas e parceiros, seja para afugentar ou despistar predadores.

As zonas abissais são consideradas mais desconhecidas ao homem do que o espaço. Todo esse mistério instiga, intriga e surpreende quem se aventura a conhecer seus segredos. É impressionante como a vida se adapta aos lugares mais difíceis. É uma maravilha que levou anos para se formar, e conhecer e cuidar é uma coisa legal a se fazer. Para nos maravilharmos cada vez mais a cada descoberta.
Vida nas profundezas Vida nas profundezas Reviewed by Túlio Lima Botelho on 17:00 Rating: 5

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