Sobre aquele frágil equilíbrio

"Lembro-me de todas as vezes que Irmão Leopold reunia os aprendizes em voltada árvore. Ele gostava de refletir nossa pequenez e confiança em excesso. Nunca me esquecerei daquelas palavras: 
- Ninguém está isolado no mundo. Mesmo aquele que vive sozinho no topo da montanha não se encontra só. Eu, vocês, aqueles pássaros, tudo está ligado uns aos outros e as ações de um repercutem no outro.
- Observem essa árvore. Seu tamanho e imponência dá a falsa impressão de que ela é intocável, a maior criação da natureza. No entanto, ela é uma árvore como todas as outras do mundo. Vocês devem estar se perguntando: “como ela é igual às outras se ela nos protege dos espíritos que queremos esquecer?” Sim, meus alunos, ela nos protege, mas, ainda assim, é uma simples árvore. Conectada com todos os seres vivos na delicada teia da vida.
- Acreditamos que, enquanto esta árvore estiver de pé, todo o mal ficará longe do mundo. Caso ela seja destruída, o mundo se tornará o pior lugar para se viver. O mesmo acontecerá com a destruição de qualquer outra árvore do mundo. Quando você derruba uma árvore, junto com ela será derrubada uma infinidade de seres vivos que dependem dela. Uma árvore cheia de insetos pode parecer pouca coisa, mas de árvore em árvore, um dia a floresta não existirá mais.
- Com o fim da floresta, as águas vão embora logo em seguida, levando os peixes, as algas e tudo que era bonito e necessário à vida de todos vocês. Esse é um mundo em que vocês gostariam de viver?
- Aproveitem o tempo que tem aqui para aprender que nada é superior a outro e que tudo está unido. A árvore, o pássaro e o rei são iguais e estão mais próximos do que imaginam, ligados na delicada teia da vida."

Já faz algum tempo que resolvi começar a escrever textos de fantasia e ficção. Esse semana surgiu esse aí de cima, inspirado por essa imagem. Escrevi ele para se encaixar num trecho que um história maior que ainda pretendo escrever, focada num povo que tem uma árvore como símbolo máximo de proteção. Nesse trecho, quis mostrar algo que já falo muito aqui: as relações que todos os seres vivos possuem e o quanto elas são delicadas, que podem ser destruídas por qualquer coisa.

O desastre em Mariana mostra o quanto toda a vida está interligada e dependente do bem-estar do planeta. No início de novembro, uma barragem de lama de minério da Samarco se rompe, arrasando o distrito de Bento Rodrigues e levando a lama tóxica para as águas do rio Doce. Várias vidas humanas foram perdidas nesse lugar, outras tantas ainda desaparecidas, num caos que estava apenas começando.

A provável morte do rio doce por causa da lama e todos os metais pesados que ela trazia afetou todos os seres vivos que dependiam dele. São desesperadoras as imagens dos peixes mortos na lama, das árvores arrancadas, sem falar da perspectiva nada animadora dos desastres que ocorrerão quando essa lama chegar ao oceano.

Sem falar na falta d'água sentida pelas pessoas dos municípios abastecidos pelo rio Doce. Milhares de pessoas agora dependem de doações, poços e da água da chuva. Falta d'água é, para mim, uma das piores coisas que podem acontecer. Não tem como ficar sem!

Rio Doce tomado pela lama em Ipatinga (MG)
Rio Doce tomado pela lama em Ipatinga (MG)

Agora, analisem tudo e percebam como uma fato (o rompimento da barragem) prejudicou a vida de vários seres vivos, mesmo aqueles não afetados diretamente pela lama. A importância do rio é evidente quando, na sua destruição, todos são afetados: pessoas, peixes, árvores, etc. Sem falar nas tartarugas e outros seres marinhos que inevitavelmente entrarão em contato com a lama.

Aquele delicado equilíbrio foi rompido por uma ação do homem. A falta de monitoria da barragem, a falta de sistema de avisos e qualquer outra coisa criou e agravou o desastre. A perspectiva mais otimista que li é que todo o processo de recuperação levaria, pelo menos, uma década. Mesmo que o ambiente seja recuperado, as espécies afetadas nesse desastre não voltarão ao que eram antes. Quem sabe quantas foram extintas no processo? E se ali havia alguma desconhecida para a ciência e agora está perdida para sempre?

Sem falar nas vidas humanas perdidas e afetadas. Aquelas pessoas não voltarão mais, as criações estão perdidas, a cidade não existe mais. A empresa pode pagar vários milhões de multa e arcar com os custos da recuperação, mas não será suficiente para recuperar aquilo que foi realmente perdido.
Sobre aquele frágil equilíbrio Sobre aquele frágil equilíbrio Reviewed by Túlio Lima Botelho on 14:00 Rating: 5

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